quarta-feira, 26 de maio de 2010

Passion makes you wonder if the sky is red.
Passion makes you wonder if heaven's in your bed.
Then passion makes you see that the sky is bleeding red,
then passion beats you and makes you fall down from your bed.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Carcará, uma peleja acolá.

"Eita que Francisco tá magro que dói ! Tá parecenu um cabrito novo !", pensou Livramenta que tomava um café na casa do compadre Francisco. Mas Maria do Livramento da Anunciação não era mulher de guardar opinião, e tinha madeira naquela cara enrugada do sol, então não hesitou em dizer:
- Óia, cumpadi... quem sou eu pra dizê uma coisa dessa, né não ? Mas acho que o cumpadi tá fastioso demais, precisa é de cumê farinha, ficar forte.
- Dona Livramenta, e é tu que vai butá farinha no meu prato ? Num tenho mais mulhé pra cunzinhá pra mim não...
- Seu Chiiiicoooo... tu é véi desse jeito e num sabe nem assar uma piaba no espeto ? Mas num tô dizendo, mermo... Já derribô boi pelo rabo, mamou em peito de sereia, palitô dente de cavalo e vem me dizer que passa fome porque num tem quem cunzinhe pra tu ? Apois vamo fazer o singuinte: o cumpadi pesca que eu asso. Todo dia, viu ? Se me deixar na mão, conto pro povo todinho aquela história do carcará.
- Éééééguaaaa... ! Apois é assim, é ? Tá certo, tu vai ter peixe todo dia, até eu morrê.

A partir daquele dia, então, Francisco ia religiosamente às 5h da manhã com seu lampião e um pedaço de grude jogar sua vara de pesca no mar para garantir o almoço, senão lá ia a vila inteira saber da história do carcará, ia lascar tudo, ia ter que fugir pro interior.

Livramenta era mulher de palavra que tinha botado o marido mais macho que touro pra correr, só de roupa de baixo, pela rua, já no primeiro dia de casamento. Ouviam-se boatos de que seu filho homem já nasceu e saiu andando, e que a menina tinha o buraco do sexo tampado, que era pra cabra nenhum bulir com ela. Por essas e outras histórias que Francisco temia a boca de tal mulher, que fazia chover em pleno dezembro só de reclamar do calor e que tivera coragem em convidar para madrinha de sua filha Gercilândia, por ter dito que a menina ia nascer de 10 meses, gorda e saudável, o que realmente aconteceu.

Era domingo de manhã e Maria do Livramento já tinha terminado os afazeres, só faltava limpar o peixe, que Francisco estava demorando mais que o normal para trazer. Sem entender o porquê da demora, resolveu ir até a praia ver o que tinha acontecido e, talvez com sua boca de levar neve pro sertão, fazer cair do céu ou pular do mar um peixe do tamanho de um boi, porque, se dependesse de Francisco, só ia ter era piaba - e pro jantar. Chegou batendo os pés na areia quente, perguntando para um grupo de pescadores onde estava seu compadre, até perceber que o mesmo estava no meio da roda, segurando um peixe bonito de se ver, dourado à luz do sol, por pouco maior que o homem que o segurava.
- Viiiixi, cumpadi ! Gostei de ver ! Achei que tinha afrouxado ingual aquela veiz que tu se cagou todinho e borrou as calça com medo de um carcará que pousou baixo !

domingo, 8 de março de 2009

Jericoacoara, cogumelos e a princesa encantada.


Leônidas era um pouco medroso, mas nada que o impedisse de tomar uma dose adrenalina vez ou outra, ou, até mesmo, como estava prestes a fazer, de tomar uma dose de chá de cogumelo. O copo tremia em sua mão, cor de burro-quando-foge, com objetos não identificados boiando toscamente. Pensou em desistir, mas olhou para o lado e viu que seu amigo Lírio já virara o seu.


"Ok, vou tentar me controlar... CA-RA-LHO ! Minhas veias são cor-de-rosa neon !", delirou o Leônidas pós-cogumelo, já quase enlouquecendo sem saber o que fazer com tantos pensamentos, tantas idéias e tantas vontades. Queria pular no mar e no céu ao mesmo tempo, então resolveu correr sem rumo para o lado direito da praia, sendo seguido por um Lírio alucinado que gritava "JACKIE KENNEDY, MINHA MUSA ! CASE-SE COMIGO !" de 10 em 10 segundos. Foram correndo sem lenço nem documento até se surpreenderem com um farol listrado, em preto e branco, que se erguia morto à luz do meio-dia mas, que mesmo assim, iluminou mais ainda as idéias fluorescentes dos jovens psicodélicos.

- A princesa, cara... É por aqui que ela fica ! - disse Lírio olhando ao redor.

- Errr... hum... onde ?

Os dois desorientados não faziam a menor idéia de onde ficava a entrada para a caverna da princesa encantada, mas encontraram por sorte um guia que conduzia turistas à Pedra Furada, que fica mais adiante:

- Óia... vocês desce ali, tá vênu ? Aí chega lá embaixo e tem uma abertura, aí tem que adentrar de cóca.

- De que ?

- De cóca. De cócra. Abaixado, rapaizi. Se arribar bate a cabeça. - explicou o guia atormentado por estar dando muitas informações de graça.


Lá estavam. Uma abertura de um metro ou menos, com passagem para uma pessoa de cada vez e os dois mais agitados que siri em lata, imaginando que a princesa era gostosa e que eles iam dar uns catas nela e fazer um tour pela cidade encantada que se escondia depois do portal no qual a moça ficava. Ingênuos, no mínimo. Drogados ? Até demais. Só que não custava nada ir conhecer um lugar já desbravado, que parecia não oferecer perigo nenhum. Então Lírio, que ainda recitava versos para Jackie Kennedy, se calou e entrou 'de cócoras' na caverna, seguido de Leônidas. Só os dois.


Os dois amigos, apesar de muito diferentes entre si, entraram em sintonia quanto ao efeito do chá e começaram a ter as mesmas alucinações. Ao caminhar pela caverna - que apesar do teto baixo exigia uma boa caminhada para chegar ao fim - começaram a sentir que o tempo esfriava a cada passo e que nas pedras desconexas que formavam as paredes ia surgindo uma coisa branca, diferente... era neve. Desviando de estalactites e estalagmites de gelo e devido ao frio, a caminhada foi se tornando mais árdua, mas, sem pensar em desistir sequer um momento, chegaram ao clímax da missão: no fim da caverna, num umbral repleto de cristais, se avistava o colossal, dourado, mágico e inacreditável portão. Sem ação, tudo que Lírio e Leônidas puderam fazer foi caírem sobre seus joelhos e esperar o que já imaginavam que estaria por vir.


Serena, cor de ébano, olhos melancólicos. A face pura e inocente que se perdia em meio a um tronco nu e solitário de humana acompanhado de uma calda dourada e resplandecente de cobra chegou longe de despertar o tesão desesperado e adolescente dos garotos incrédulos que pensavam ter diante de si a visão de algum orixá ou divindade de qualquer religião que fosse - existente ou não. Dos seus cabelos longos surgiam flores do campo amarelas e seus dedos quase negros e compridos seguravam a grade como em pedido de socorro. Em um movimento difícil e sôfrego de realizar, os lábios ternos de índia se entreabriram e sussurraram um som quase inaudível:

- Sangue... por favor...

- Cara, a gente precisa correr. Elas quer nos seduzir para nos matar. ELA QUER SANGUE ! - gritou Leônidas alucinado. Porém, Lírio estava hipnotizado pela beleza mágica da jovem que pedia ajuda e, sem pensar, procurou ao seu redor um objeto cortante. Surgiam pingüins, insetos desconhecidos e flores por todas as partes. Uma trepadeira que ia nascendo do teto da caverna alcançou o chão e prendeu os pés de Leônidas, que devido ao cansaço não conseguiu se desvencilhar ou correr. Lírio, encantado, arrancara um pedaço de gelo da parede e fizera um corte vertical em seu pulso esquerdo.

- E agora, minha senhora ? Tenho aqui meu sangue. Devo morrer ?

- Não... eu... uma cruz em meu tronco. Desenhe... uma cruz... - chorava palavras, a estranha. Lírio, então, passou os dedos médio e indicador pelo corte que jorrava sangue e, sem muito pensar, se aproximou da grade dourada, tocando gentilmente o colo da princesa encantada e desenhando em seu dorso uma cruz.

- E agora ? Estou ficando fraco, o meu sangue... ele... ele vai acabar. Você vai me salvar, princesa ? - nesse mesmo momento, da cruz de sangue surgiu uma luz inebriante e podia-se ouvir do interior do portão melodias de harpa, vozes em um idioma desconhecido, palmas, canções, cavalos galopando e toda a sorte de sons de uma cidade em festa. Do interior da caverna, misteriosamente, surgiu um homem de nariz adunco e roupa de lacaio que trazia consigo um chaveiro repleto de grandes chaves douradas e, com uma delas, abriu o portão monumental. A princesa, porém, que vestia apenas um manto acobreado e bordado em pérolas, virou as costas e caminhou em direção à cidade, como se pedindo que a seguissem. Lírio, pálido e com o sangue já em falta, não conseguiu se mover para adentrar a cidade mágica, e desmaiou. Para sempre. Leônidas já havia sido sufocado pela trepadeira que surgira do nada. Agora, a cidade comemorava a volta da belíssima índia pela qual se apaixonara seu príncipe que, até então, vivera só de lágrimas de saudades e dor. "Pobres garotos... o chá que beberam sequer fez efeito.", riu consigo o lacaio ao fechar o portão e se juntar a um grupo que dançava e bebia na entrada da cidade.

Créditos: Ao Lucas (pelo nome Leônidas) e aos nativos de Jericoacoara (por espalharem a história da Princesa Encantada, da qual eu gosto tanto).

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Mania nossa de cada agonia.



- Voltei.
- MEU DEUS! ADRIANA! Como...
- Voltei, caramba. Você achou que eu fosse ficar lá pra sempre, sem culpa nenhuma?
- Adriana, como você não avisou que ia voltar? Como NINGUÉM avisou?
- Quis guardar surpresa pra ver se eu ia voltar e os móveis iam estar no lugar. Cadê aquele meu quadro de art nouveau que tinha ao lado da prateleira de livros?
- Vamos sentar e conversar, querida. Você está pálida, vou preparar uma canja e...
- MÃE, CADÊ - O - MEU - QUADRO ?
Adriana era impulsiva, ansiosa, roía as unhas desesperadamente quando tinha algo importante a realizar e, além de tudo, sofria de seríssimos TOCs. Suas pantufas - as mesmas desde a adolescência, quando o pé parou de crescer - tinham que estar sempre ao lado da poltrona da sala de tevê, na mesma posição, uma em cada ladrilho do chão, os da terceira fileira a partir da parede. Tinha quatro colchas de cama, uma para cada semana do mês, e AI da empregada se trocasse as semanas e colocasse a colcha da terceira na segunda. E, a mais importante: os móveis tinham que estar sempre no MESMO lugar, nem um milímetro fora, nem uma coisa a menos, nem uma caixinha de loja indiana nova em cima do criado-mudo. Tá, talvez isso não seja TOC, mas é uma amostra da irreverência de Adriana.
Naquele dia, após quatro anos fora vendo o sol nascer quadrado por envolvimento com tráfico de drogas [o que fez para se aproximar de Jorjão Casca Grossa], voltou para casa de surpresa, para ver como estavam as coisas sem ela. Na cadeia, causou muita confusão com suas manias, sem suas pantufas, e foi expulsa de três celas. É, é compreensível.
Sexta-feira, sol quente, as pessoas saindo aliviadas do trabalho e indo para seus happy-hours regados a chopp, Adriana chega em casa sem bater na porta e depara com uma sala desconhecida, o sofá no lugar da estante, a estante no lugar da estátua e a estátua no lugar do sofá. E seu quarto, como estaria? Respirou fundo e saiu enfurecida, dando as costas à mãe e foi verificar seu ninho, na esperança de achar pelo menos a colcha no dia certo, ou a cama encostada na parede. Adentrou a primeira porta do corredor, Nada de acordo. No lugar dos móveis estavam caixas empilhadas, a cama estava desmontada e até a cortina mudara. Num acesso de raiva, começou a atirar as caixas no chão, querendo achar seu quadro art nouveau, seus livros, seus filmes, seu computador, suas fotos. Nada, nada, nada... Abrindo as caixas enfurecida, se deparou com um kit para churrasco, repleto de facões afiados, reluzindo à luz que saía da fresta e uma idéia a iluminou imediatamente, e ia crescendo à medida que atravessava o corredor correndo, com a cabeça em borbulhas:
- MÃÃÃE, QUEM FEZ ISSO? QUEM TRANSFORMOU MEU QUARTO EM UM SÓTÃO FANTASMAGÓRICO? QUEM? QUEM?
Sua mãe, assustada e ciente da falta de juízo da filha, tentou entender a situação e disse, em tom calmo, quase num sussurro:
- Caso você tenha se esquecido, seu quarto, com a colcha da segunda semana do mês e o quadro que você mesma mudou de lugar pouco antes de ir embora, é a segunda porta do corredor, e não a primeira.

domingo, 21 de setembro de 2008

Jaboticabal.

Enfim sei porquê tenho tais olhos,
negros em breu,
tais como jabuticabas.

Para fazer de ti minha árvore,
meu jaboticabal,
e como o fruto que brota dos galhos,
meus olhos grudarem em tua nuca;
em teus braços;
em tuas pernas;
em teu tronco.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Cabaré cearense - Top model em Fortaleza.

- Aurinha agora tá toda pomposa, cheia de frufrus, vestido de tecido fino, sapato da Boutique Paulista... Parece até que arranjou pretendente rico! - Comentou a fuxiqueira Tonha, vizinha de Aurinha, com sua filha Clotilde.
- É mesmo, viu. Ouvi dizer que comprou até televisão.
- Tá com a gota! É mesmo?
- É sim. Só quer ser a Jackie Kennedy da Paraíba. - No mesmo momento, por um minuto de distração em que saíram do posto de fofoca na frente da casa, as duas não viram Áurea Aires (conhecida como Aurinha), que saía com meia-dúzia de malas e entrava em um carro com motorista contratado, rumo a Fortaleza.
Jovem e bela, Áurea tinha 23 anos de olhos negros e profundos, cabelos delicadamente encaracolados, corpo esbelto e lábios fartos e desenhados. Era o sonho de todos os homens que a viam, uma sereia, feiticeira, com o perfume da tentação exalando de seus poros, era cantora da noite cobiçada por sua beleza e que nunca fizera programa. Sua fama de mulher mais bela e sedutora da Paraíba chegara aos ouvidos da dona do melhor bordel do Ceará que, cansada de suas meninas com feições de índio, ofereceu a Aurinha todo luxo, conforto e caprichos que ela não tinha na terra natal. A oferta era irrecusável e a jovem cantora partiu, de mala e cuia, dizendo a todos que a conheciam que fora contratada para ser modelo de revista de moda.
Áurea estava insegura. Sabia que era a melhor, e isso a tornara um tanto arrogante, porém, estava com medo, sim. Ia virar mulher da vida, objeto sexual. Estava preparada? Após boas horas de viagem, chegaram, enfim, no bordel. Pisou com medo pra fora do carro, mas sem demonstrar que tremia dos pés à cabeça. Foi recepcionada com ardor pela cafetina, que logo tratou de instalá-la em um luxuoso quarto com cortinas de renda, cama com biombo, piso de madeira que tilintava ao bater do salto fino e um banheiro verde e branco, tudo no mais moderno estilo space age.
- Preparada para sua noite de estréia? Convidei os meis bem-quistos homens da alta-sociedade, que estão ansiosos em vê-la. - disse a dona do bordel, encantada com a beleza e o luxo de Áurea.
- Hum... Estou preparada, sim, é claro. Mas preciso de algumas horas de descanso, um chá verde, rodelas de pepino, um banho morno com sais, e... Ah, é claro! Preciso de alguém para arrumar minhas coisas. Desfazer malas me cansa.
- LÍVIA! VENHA JÁ AQUI! - gritou a cafetina olhando para a porta.
- Sim, senhora? - Lívia, uma garota alta de cabelos negros e lisos, índia quase pura, chegara sem ar, perante tanta autoridade.
- Ajude Aurinha a arrumar o quarto, desfazendo as malas e colocando tudo no lugar. Ela precisa descansar, pois irá cantar e... trabalhar - disse dando uma risadinha abafada. - Aurinha, os músicos pediram para comparecer no salão às dezessete horas, para o ensaio geral. Me diga, minha bela, que canções irá cantar?
- Umas de Frank, umas de Marilyn. Sabes que ainda não decidi?
- Confio no seu bom gosto, minha cara. Agora, deixe-me ir, preciso dar as ordenadas às meninas. Com licença. - retirou-se a cafetina com educação.
- Menina, não demore muito. E cuidado com os meus vestidos, eles valem mais que você e suas irmãs todas juntas, se vendidas. - falou com total autoridade Aurinha a Lívia.
Já era quase hora do cabaré abrir e o ensaio geral das dezessete horas teria ido melhor não fossem os chiliques e exigências absurdas de Áurea, que estava absurdamente nervosa. Após o ensaio, foi se arrumar e esperar em seu quarto, sob o efeito de calmantes tarja-preta. "Meu Deus... O que fazer?", sussurrava a moça, desesperada. Até que alguém bate na porta, dizendo ser a hora do grande show. Abriu a porta, deixando a cafetina tonta perante tanta beleza. Aurinha estava hipnotizante em seu vestido de cetim negro, decotado com alças se jutando na nuca e uma fenda do lado direito, que ia da barra até a coxa farta, deixando a mostra cinta-liga e meia-arrastão, uma gargantilha de brilhantes, cabelos à la diva hollywoodiana, enrolados e volumosos, batom carmin e sandálias importadas da França. Desceu a escada em passos firmes, chegando ao palco e deixando todos os marmanjos de queixo caído. Segurou o microfone seguro em uma haste e, afinada e suavemente, começou a cantar The Lady is a Tramp, arrancando suspiros, aplausos adiantados e dinheiro do bolso dos homens, que levantavam as cédulas com empolgação e faziam uma sorte de leilão com a dona do cabaré, que nunca vira tantas ofertas boas em toda sua vida. Seguiu cantando mais canções de Frank Sinatra, sua paixão platônica, até cansar e sua cafetina vir anunciar ao microfone quem havia ganhado a noite de amor com Áurea. O sortudo (e rico) era dono da maior fábrica de sapatos do Brasil, e passava férias no Ceará. Rechonchudo, tinha um enorme bigode que enrolava nas pontas e usava terno italiano. Achou que estava sonhando, quando se viu sendo puxado pela mão da cobiçada, subindo as escadas em direção ao paraíso. Não conseguia pensar em mais nada, só no prazer que estava por vir. Ao chegar no quarto, se lavou e se deitou, como mandava a "etiqueta". Todos no salão esperavam irriquietos para ver como voltaria o homem e alguns foram embora, desapontados, dizendo que só voltariam quando Áurea estivesse disponível, que não queriam outra mulher. Os que ficaram, bebiam e fumavam charutos de Havana, ficando por ali mesmo, já que não fazia diferença, iam ouvir sermões de suas esposas do mesmo jeito, o mal estava feito. Até que o inesperado aconteceu e lá descia correndo a escada o rico dono da fábrica de sapatos, sem camisa, com a calça desabotoada, olhos esbugalhados e rosto vermelho em chamas. Corria e, mesmo sem fôlego algum pra falar, juntou suas forças e gritou, aterrorizado:
- É UM HOMEM, MEU DEUS! AQUILO É UM HOMEM!

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Cansei, hem.

Cansei de tropeçar, errante.
Cansei do meu soluçar, constante.
Cansei de sonhar, navegante.

Grande mentira é o pote de ouro do arco-íris:
só brilha porque não existe.