domingo, 8 de março de 2009

Jericoacoara, cogumelos e a princesa encantada.


Leônidas era um pouco medroso, mas nada que o impedisse de tomar uma dose adrenalina vez ou outra, ou, até mesmo, como estava prestes a fazer, de tomar uma dose de chá de cogumelo. O copo tremia em sua mão, cor de burro-quando-foge, com objetos não identificados boiando toscamente. Pensou em desistir, mas olhou para o lado e viu que seu amigo Lírio já virara o seu.


"Ok, vou tentar me controlar... CA-RA-LHO ! Minhas veias são cor-de-rosa neon !", delirou o Leônidas pós-cogumelo, já quase enlouquecendo sem saber o que fazer com tantos pensamentos, tantas idéias e tantas vontades. Queria pular no mar e no céu ao mesmo tempo, então resolveu correr sem rumo para o lado direito da praia, sendo seguido por um Lírio alucinado que gritava "JACKIE KENNEDY, MINHA MUSA ! CASE-SE COMIGO !" de 10 em 10 segundos. Foram correndo sem lenço nem documento até se surpreenderem com um farol listrado, em preto e branco, que se erguia morto à luz do meio-dia mas, que mesmo assim, iluminou mais ainda as idéias fluorescentes dos jovens psicodélicos.

- A princesa, cara... É por aqui que ela fica ! - disse Lírio olhando ao redor.

- Errr... hum... onde ?

Os dois desorientados não faziam a menor idéia de onde ficava a entrada para a caverna da princesa encantada, mas encontraram por sorte um guia que conduzia turistas à Pedra Furada, que fica mais adiante:

- Óia... vocês desce ali, tá vênu ? Aí chega lá embaixo e tem uma abertura, aí tem que adentrar de cóca.

- De que ?

- De cóca. De cócra. Abaixado, rapaizi. Se arribar bate a cabeça. - explicou o guia atormentado por estar dando muitas informações de graça.


Lá estavam. Uma abertura de um metro ou menos, com passagem para uma pessoa de cada vez e os dois mais agitados que siri em lata, imaginando que a princesa era gostosa e que eles iam dar uns catas nela e fazer um tour pela cidade encantada que se escondia depois do portal no qual a moça ficava. Ingênuos, no mínimo. Drogados ? Até demais. Só que não custava nada ir conhecer um lugar já desbravado, que parecia não oferecer perigo nenhum. Então Lírio, que ainda recitava versos para Jackie Kennedy, se calou e entrou 'de cócoras' na caverna, seguido de Leônidas. Só os dois.


Os dois amigos, apesar de muito diferentes entre si, entraram em sintonia quanto ao efeito do chá e começaram a ter as mesmas alucinações. Ao caminhar pela caverna - que apesar do teto baixo exigia uma boa caminhada para chegar ao fim - começaram a sentir que o tempo esfriava a cada passo e que nas pedras desconexas que formavam as paredes ia surgindo uma coisa branca, diferente... era neve. Desviando de estalactites e estalagmites de gelo e devido ao frio, a caminhada foi se tornando mais árdua, mas, sem pensar em desistir sequer um momento, chegaram ao clímax da missão: no fim da caverna, num umbral repleto de cristais, se avistava o colossal, dourado, mágico e inacreditável portão. Sem ação, tudo que Lírio e Leônidas puderam fazer foi caírem sobre seus joelhos e esperar o que já imaginavam que estaria por vir.


Serena, cor de ébano, olhos melancólicos. A face pura e inocente que se perdia em meio a um tronco nu e solitário de humana acompanhado de uma calda dourada e resplandecente de cobra chegou longe de despertar o tesão desesperado e adolescente dos garotos incrédulos que pensavam ter diante de si a visão de algum orixá ou divindade de qualquer religião que fosse - existente ou não. Dos seus cabelos longos surgiam flores do campo amarelas e seus dedos quase negros e compridos seguravam a grade como em pedido de socorro. Em um movimento difícil e sôfrego de realizar, os lábios ternos de índia se entreabriram e sussurraram um som quase inaudível:

- Sangue... por favor...

- Cara, a gente precisa correr. Elas quer nos seduzir para nos matar. ELA QUER SANGUE ! - gritou Leônidas alucinado. Porém, Lírio estava hipnotizado pela beleza mágica da jovem que pedia ajuda e, sem pensar, procurou ao seu redor um objeto cortante. Surgiam pingüins, insetos desconhecidos e flores por todas as partes. Uma trepadeira que ia nascendo do teto da caverna alcançou o chão e prendeu os pés de Leônidas, que devido ao cansaço não conseguiu se desvencilhar ou correr. Lírio, encantado, arrancara um pedaço de gelo da parede e fizera um corte vertical em seu pulso esquerdo.

- E agora, minha senhora ? Tenho aqui meu sangue. Devo morrer ?

- Não... eu... uma cruz em meu tronco. Desenhe... uma cruz... - chorava palavras, a estranha. Lírio, então, passou os dedos médio e indicador pelo corte que jorrava sangue e, sem muito pensar, se aproximou da grade dourada, tocando gentilmente o colo da princesa encantada e desenhando em seu dorso uma cruz.

- E agora ? Estou ficando fraco, o meu sangue... ele... ele vai acabar. Você vai me salvar, princesa ? - nesse mesmo momento, da cruz de sangue surgiu uma luz inebriante e podia-se ouvir do interior do portão melodias de harpa, vozes em um idioma desconhecido, palmas, canções, cavalos galopando e toda a sorte de sons de uma cidade em festa. Do interior da caverna, misteriosamente, surgiu um homem de nariz adunco e roupa de lacaio que trazia consigo um chaveiro repleto de grandes chaves douradas e, com uma delas, abriu o portão monumental. A princesa, porém, que vestia apenas um manto acobreado e bordado em pérolas, virou as costas e caminhou em direção à cidade, como se pedindo que a seguissem. Lírio, pálido e com o sangue já em falta, não conseguiu se mover para adentrar a cidade mágica, e desmaiou. Para sempre. Leônidas já havia sido sufocado pela trepadeira que surgira do nada. Agora, a cidade comemorava a volta da belíssima índia pela qual se apaixonara seu príncipe que, até então, vivera só de lágrimas de saudades e dor. "Pobres garotos... o chá que beberam sequer fez efeito.", riu consigo o lacaio ao fechar o portão e se juntar a um grupo que dançava e bebia na entrada da cidade.

Créditos: Ao Lucas (pelo nome Leônidas) e aos nativos de Jericoacoara (por espalharem a história da Princesa Encantada, da qual eu gosto tanto).

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Mania nossa de cada agonia.



- Voltei.
- MEU DEUS! ADRIANA! Como...
- Voltei, caramba. Você achou que eu fosse ficar lá pra sempre, sem culpa nenhuma?
- Adriana, como você não avisou que ia voltar? Como NINGUÉM avisou?
- Quis guardar surpresa pra ver se eu ia voltar e os móveis iam estar no lugar. Cadê aquele meu quadro de art nouveau que tinha ao lado da prateleira de livros?
- Vamos sentar e conversar, querida. Você está pálida, vou preparar uma canja e...
- MÃE, CADÊ - O - MEU - QUADRO ?
Adriana era impulsiva, ansiosa, roía as unhas desesperadamente quando tinha algo importante a realizar e, além de tudo, sofria de seríssimos TOCs. Suas pantufas - as mesmas desde a adolescência, quando o pé parou de crescer - tinham que estar sempre ao lado da poltrona da sala de tevê, na mesma posição, uma em cada ladrilho do chão, os da terceira fileira a partir da parede. Tinha quatro colchas de cama, uma para cada semana do mês, e AI da empregada se trocasse as semanas e colocasse a colcha da terceira na segunda. E, a mais importante: os móveis tinham que estar sempre no MESMO lugar, nem um milímetro fora, nem uma coisa a menos, nem uma caixinha de loja indiana nova em cima do criado-mudo. Tá, talvez isso não seja TOC, mas é uma amostra da irreverência de Adriana.
Naquele dia, após quatro anos fora vendo o sol nascer quadrado por envolvimento com tráfico de drogas [o que fez para se aproximar de Jorjão Casca Grossa], voltou para casa de surpresa, para ver como estavam as coisas sem ela. Na cadeia, causou muita confusão com suas manias, sem suas pantufas, e foi expulsa de três celas. É, é compreensível.
Sexta-feira, sol quente, as pessoas saindo aliviadas do trabalho e indo para seus happy-hours regados a chopp, Adriana chega em casa sem bater na porta e depara com uma sala desconhecida, o sofá no lugar da estante, a estante no lugar da estátua e a estátua no lugar do sofá. E seu quarto, como estaria? Respirou fundo e saiu enfurecida, dando as costas à mãe e foi verificar seu ninho, na esperança de achar pelo menos a colcha no dia certo, ou a cama encostada na parede. Adentrou a primeira porta do corredor, Nada de acordo. No lugar dos móveis estavam caixas empilhadas, a cama estava desmontada e até a cortina mudara. Num acesso de raiva, começou a atirar as caixas no chão, querendo achar seu quadro art nouveau, seus livros, seus filmes, seu computador, suas fotos. Nada, nada, nada... Abrindo as caixas enfurecida, se deparou com um kit para churrasco, repleto de facões afiados, reluzindo à luz que saía da fresta e uma idéia a iluminou imediatamente, e ia crescendo à medida que atravessava o corredor correndo, com a cabeça em borbulhas:
- MÃÃÃE, QUEM FEZ ISSO? QUEM TRANSFORMOU MEU QUARTO EM UM SÓTÃO FANTASMAGÓRICO? QUEM? QUEM?
Sua mãe, assustada e ciente da falta de juízo da filha, tentou entender a situação e disse, em tom calmo, quase num sussurro:
- Caso você tenha se esquecido, seu quarto, com a colcha da segunda semana do mês e o quadro que você mesma mudou de lugar pouco antes de ir embora, é a segunda porta do corredor, e não a primeira.

domingo, 21 de setembro de 2008

Jaboticabal.

Enfim sei porquê tenho tais olhos,
negros em breu,
tais como jabuticabas.

Para fazer de ti minha árvore,
meu jaboticabal,
e como o fruto que brota dos galhos,
meus olhos grudarem em tua nuca;
em teus braços;
em tuas pernas;
em teu tronco.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Cabaré cearense - Top model em Fortaleza.

- Aurinha agora tá toda pomposa, cheia de frufrus, vestido de tecido fino, sapato da Boutique Paulista... Parece até que arranjou pretendente rico! - Comentou a fuxiqueira Tonha, vizinha de Aurinha, com sua filha Clotilde.
- É mesmo, viu. Ouvi dizer que comprou até televisão.
- Tá com a gota! É mesmo?
- É sim. Só quer ser a Jackie Kennedy da Paraíba. - No mesmo momento, por um minuto de distração em que saíram do posto de fofoca na frente da casa, as duas não viram Áurea Aires (conhecida como Aurinha), que saía com meia-dúzia de malas e entrava em um carro com motorista contratado, rumo a Fortaleza.
Jovem e bela, Áurea tinha 23 anos de olhos negros e profundos, cabelos delicadamente encaracolados, corpo esbelto e lábios fartos e desenhados. Era o sonho de todos os homens que a viam, uma sereia, feiticeira, com o perfume da tentação exalando de seus poros, era cantora da noite cobiçada por sua beleza e que nunca fizera programa. Sua fama de mulher mais bela e sedutora da Paraíba chegara aos ouvidos da dona do melhor bordel do Ceará que, cansada de suas meninas com feições de índio, ofereceu a Aurinha todo luxo, conforto e caprichos que ela não tinha na terra natal. A oferta era irrecusável e a jovem cantora partiu, de mala e cuia, dizendo a todos que a conheciam que fora contratada para ser modelo de revista de moda.
Áurea estava insegura. Sabia que era a melhor, e isso a tornara um tanto arrogante, porém, estava com medo, sim. Ia virar mulher da vida, objeto sexual. Estava preparada? Após boas horas de viagem, chegaram, enfim, no bordel. Pisou com medo pra fora do carro, mas sem demonstrar que tremia dos pés à cabeça. Foi recepcionada com ardor pela cafetina, que logo tratou de instalá-la em um luxuoso quarto com cortinas de renda, cama com biombo, piso de madeira que tilintava ao bater do salto fino e um banheiro verde e branco, tudo no mais moderno estilo space age.
- Preparada para sua noite de estréia? Convidei os meis bem-quistos homens da alta-sociedade, que estão ansiosos em vê-la. - disse a dona do bordel, encantada com a beleza e o luxo de Áurea.
- Hum... Estou preparada, sim, é claro. Mas preciso de algumas horas de descanso, um chá verde, rodelas de pepino, um banho morno com sais, e... Ah, é claro! Preciso de alguém para arrumar minhas coisas. Desfazer malas me cansa.
- LÍVIA! VENHA JÁ AQUI! - gritou a cafetina olhando para a porta.
- Sim, senhora? - Lívia, uma garota alta de cabelos negros e lisos, índia quase pura, chegara sem ar, perante tanta autoridade.
- Ajude Aurinha a arrumar o quarto, desfazendo as malas e colocando tudo no lugar. Ela precisa descansar, pois irá cantar e... trabalhar - disse dando uma risadinha abafada. - Aurinha, os músicos pediram para comparecer no salão às dezessete horas, para o ensaio geral. Me diga, minha bela, que canções irá cantar?
- Umas de Frank, umas de Marilyn. Sabes que ainda não decidi?
- Confio no seu bom gosto, minha cara. Agora, deixe-me ir, preciso dar as ordenadas às meninas. Com licença. - retirou-se a cafetina com educação.
- Menina, não demore muito. E cuidado com os meus vestidos, eles valem mais que você e suas irmãs todas juntas, se vendidas. - falou com total autoridade Aurinha a Lívia.
Já era quase hora do cabaré abrir e o ensaio geral das dezessete horas teria ido melhor não fossem os chiliques e exigências absurdas de Áurea, que estava absurdamente nervosa. Após o ensaio, foi se arrumar e esperar em seu quarto, sob o efeito de calmantes tarja-preta. "Meu Deus... O que fazer?", sussurrava a moça, desesperada. Até que alguém bate na porta, dizendo ser a hora do grande show. Abriu a porta, deixando a cafetina tonta perante tanta beleza. Aurinha estava hipnotizante em seu vestido de cetim negro, decotado com alças se jutando na nuca e uma fenda do lado direito, que ia da barra até a coxa farta, deixando a mostra cinta-liga e meia-arrastão, uma gargantilha de brilhantes, cabelos à la diva hollywoodiana, enrolados e volumosos, batom carmin e sandálias importadas da França. Desceu a escada em passos firmes, chegando ao palco e deixando todos os marmanjos de queixo caído. Segurou o microfone seguro em uma haste e, afinada e suavemente, começou a cantar The Lady is a Tramp, arrancando suspiros, aplausos adiantados e dinheiro do bolso dos homens, que levantavam as cédulas com empolgação e faziam uma sorte de leilão com a dona do cabaré, que nunca vira tantas ofertas boas em toda sua vida. Seguiu cantando mais canções de Frank Sinatra, sua paixão platônica, até cansar e sua cafetina vir anunciar ao microfone quem havia ganhado a noite de amor com Áurea. O sortudo (e rico) era dono da maior fábrica de sapatos do Brasil, e passava férias no Ceará. Rechonchudo, tinha um enorme bigode que enrolava nas pontas e usava terno italiano. Achou que estava sonhando, quando se viu sendo puxado pela mão da cobiçada, subindo as escadas em direção ao paraíso. Não conseguia pensar em mais nada, só no prazer que estava por vir. Ao chegar no quarto, se lavou e se deitou, como mandava a "etiqueta". Todos no salão esperavam irriquietos para ver como voltaria o homem e alguns foram embora, desapontados, dizendo que só voltariam quando Áurea estivesse disponível, que não queriam outra mulher. Os que ficaram, bebiam e fumavam charutos de Havana, ficando por ali mesmo, já que não fazia diferença, iam ouvir sermões de suas esposas do mesmo jeito, o mal estava feito. Até que o inesperado aconteceu e lá descia correndo a escada o rico dono da fábrica de sapatos, sem camisa, com a calça desabotoada, olhos esbugalhados e rosto vermelho em chamas. Corria e, mesmo sem fôlego algum pra falar, juntou suas forças e gritou, aterrorizado:
- É UM HOMEM, MEU DEUS! AQUILO É UM HOMEM!

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Cansei, hem.

Cansei de tropeçar, errante.
Cansei do meu soluçar, constante.
Cansei de sonhar, navegante.

Grande mentira é o pote de ouro do arco-íris:
só brilha porque não existe.

terça-feira, 4 de março de 2008

Cabaré cearense - Cabide de puá velho.

Greice acordou e lavou o rosto na bacia, se olhando no espelho de sua penteadeira. Olhou ao redor e analisou cada objeto... Tudo da pior qualidade. O rouge estava aos pedaços, sua colônia tinha um frasco tôsco e velho, seus brincos eram feios - meras bijuterias que eram motivo de piada - e suas meias soltavam fiapos. O motivo disso tudo era o pouco que ganhava, pois, vivia de trocados e favores da patroa.
Magra ao extremo, foi apelidada de Cabide. Tinha um nariz grande e desproporcional aos seus lábios demasiadamente finos. Seu único atrativo físico era a cor dos seus olhos, um azul que deixava tímido até mesmo o mais vasto oceano, olhos que herdara de algum parente distante vindo da Europa. Grampos não prendiam por completo seu cabelo arrepiado.
"Oh... Malditas doses de uísque !", pensou ela ao sentir seu estômago embrulhar. Tinha sido mais uma noite DAQUELAS, com homens gordos e suados contando piadas em voz alta e exalando um hálito podre de cebola. "Preciso sair dessa vida libertina... Não me acho merecedora de tanto mal.". Uma lágrima desceu de seu olho esquerdo, misturada com maquiagem preta, deixando-a com um aspecto imundo. De repente, risadas, tambores, cornetas e vozes cantando quebraram o silêncio. "Veja ! É o Circo de Natal !", gritou alguém na rua. Ao ouvir isso, Greice correu para a janela para ver o circo que passava. Avistou palhaços alegres e bailarinas lindas, todos com roupas multicoloridas cheias de tule e paetê. Sentia entre eles uma harmonia fantástica, seus olhos brilhavam juntos como se fossem uma família.
Pensar em família a lembrava de sua mãe, a qual abandonara em Crateús dizendo que ia pra capital ganhar dinheiro e que voltaria para construir uma casa... Pobre velha ! Mal se banhava sozinha e fora deixada aos cuidados de seu irmão, que era pouco mais sadio que ela. Mas Greice sabia o que fazia, quanto a isso. Se era comprada por homens imundos, era para poder dar conforto a sua mãe.
Despertou dos pensamentos e voltou sua atenção para a rua. Começou a se sentir maravilhosamente bem observando o circo e a alegria com que todos dançavam. Eis que sentiu um impulso louco e desceu correndo as escadas. Alcançou a rua a tempo de se meter entre os alegres personagens, sem nem saber porquê o fazia. Só sabia que nunca sentira algo tão bom florescer de seu coração.
- Vem conosco, - disse um palhaço que a vinha observando - no circo és igual a todos e mesmo assim especial.
Os meses passavam e entre o frasco tôsco de colônia e o espelho da penteadeira surgiam teias de aranha. E se, por acaso, algum cliente perguntasse onde estava a Cabide, alguém sempre respondia:
Greice agora é do mundo.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Cabaré cearense.

É como se eu as visse debruçadas nas janelas. Sim, aquelas janelas bem antigas, com vasos repletos de brincos-de-princesa. É também como se eu as visse fumando cigarros no sol fervilhante do meio dia, com grampos no cabelo e resquícios da maquiagem pesada da noite anterior.
Clotildes, Matildes e algumas até mesmo com nome de artista de cinema. Nome artístico, é claro. Nomes que, no interior de onde vieram, jamais conseguiriam ser pronunciado entre tantos "oxente" e "cabra véi". Evitavam usar tais gírias, obviamente. Afinal, quem não queria ser como as deusas da bossa ? Aquelas cariocas douradas que chiavam, usavam roupas ousadas e desfilavam no calçadão de Copacabana com seus maiôs modernos... E elas, meras nordestinas que estavam "na vida" por ter como outra opção ter ficado no interior e jamais arriscado a vida na capital.
E tinha Ela. A Abelha Rainha, a Entidade, a Suprema. Ela que usava perfumes franceses trazidos de presente pelos empresários de mais fino-trato: Médicos, advogados e herdeiros de grandes fortunas. Era uma empresária de sucesso, trazia as meninas de Juazeiro do Norte, Quixeramobim e outras localidades "fim-de-mundo" do tipo. As trazia e as transformava, aparentemente, em damas dignas de servir a alta-sociedade.
Durante o dia, nesse calor cearense e infernal, elas se escondiam por trás das janelas enquanto limpavam o cabaré. Lustravam o chão para que não brilhasse menos que os sapatos pretos dos clientes e tiravam o pó de cada garrafa de licor, uísque e cachaça nas prateleiras.
É claro, que Ela não fazia nada o dia inteiro, além de deitar com rodelas de pepino nos olhos e ouvir Chico na vitrola. Se identificava com Geni, assim como todas as prostitutas de luxo devem se identificar, diga-se de passagem. Não pensava merecer que jogassem pedras nela, apenas entendia que os outros, por não entenderem suas necessidades e os fatores que a levaram para aquela vida, tivessem preconceito. Estava acostumada a ser apontada quando passava na rua: "Olha, é ela !", "Mas não tem vergonha na cara, mesmo !", "Filha, jamais chegue perto dessa mulher da vida !"
E quando chegava a noite... Ahhh ! Aquilo ali ficava uma maravilha ! As meninas que corriam para acender as luzes e ir pro quarto se lavar e se maquiar. Exageravam no rouge, isso dava um ar de européia, achavam elas. O batom, nem se fala... Um cor que inspirava o sexo, a paixão.
Então os homens começavam a chegar. Colocavam seus chapéus e paletós no cabide que ficava ao lado da porta, do lado de dentro, exibindo suas impecáveis camisas brancas de brim, que, mais tarde, ficariam com cheiro de colônia de lavanda e marcas do batom vermelho que inspira sexo. Sentavam para assistir o show de dama mais bela, acendiam seus charutos e esperavam que as meninas viessem sentar em seus colos. Uns tinham suas favoritas, que se arrumavam especialmente para serví-los. Logo se ouviam os saltos subindo as escadas, as "moças" rebolando o máximo que conseguiam a cada degrau e gritinhos alegres de mulheres bêbadas.
Enfim, era suor, bebidas e fumaça de charuto a noite inteira. No dia seguinte ? Bem... No dia seguinte as mesmas rodelas de pepino e o chão lustrado.